quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Decepcionado com a Igreja


Não consigo esquecer-me do meu primeiro dia na igreja. Uma sorridente recepcionista me recebeu com grande entusiasmo. No momento da apresentação dos visitantes, pessoas não menos entusiasmadas me cercaram, oferecendo apertos de mãos e expressões como: “Seja bem vindo!”, enquanto a outra parte aplaudia efusivamente. Qual a minha surpresa ao receber uma carta na mesma semana agradecendo-me mais uma vez pela presença, e convidando-me a voltar outras vezes. Quem não ficaria empolgado com tamanha atenção?

Esta cena é habitual na rotina de diversas igrejas. Dificilmente, uma pessoa tão bem recebida não voltará mais vezes, e a grande chance de angariar um novo membro é muito grande. Apresenta-se a idéia de um lugar onde todos se amam,se ajudam, lutam por objetivos comuns, almejando alcançar as mesmas coisas.

A jornalista e cientista política Lucia Hippolito normalmente costuma usar uma frase quando se refere ao PMDB: “O PMDB não é para amadores”. Fazendo uma alusão a esta frase, após 16 anos na igreja, posso afirmar sem medo: “Ser evangélico e viver ativamente numa igreja evangélica não é para amadores”.

A verdade é que nosso sistema religioso institucional está adoecendo. A mensagem do Evangelho vem perdendo a força na maioria das igrejas. As novas ondas de crescimento, dos resultados, do marketing evangélico, do status e do reconhecimento estão fazendo que a igreja passe pela sua maior crise de identidade.

O foco deixou de ser a vida das pessoas, e passou a ser quantas pessoas eu consigo trazer para minha igreja. E para isso os mais diversos atrativos são utilizados: promessa de milagres, cura, um templo luxuoso e confortável, interatividade e entretenimento na igreja, entre muitos outros. O problema é que as pessoas deixaram de ser cuidadas. Muitas vezes aquele suposto amor do primeiro dia é trocado pela indiferença, onde o pastor deixa de ser o mentor espiritual de vidas ( ou porque não tem tempo porque está inserido em muitas outras atividades que desfiguram seu chamado pastoral ) e torna-se um burocrata pragmático que prega sermões aos domingos. Quantas brigas cercam pastores e ministérios “rivais” que não se falam, porque um supostamente cresce mais que o outro. Quantos clãs e dinastias se instalam nas igrejas e assume cargos importantes não por seu amor a obra de Jesus, mas porque os seus dízimos são importantes. Quantos aproveitadores entram no “esquema” para se dar bem. Quantos são desvalorizados mesmo tendo coragem de morrer por Jesus. Alianças, acordos debaixo dos panos, casos abafados conforme os objetivos, irmãos querendo derrubar outros irmãos, uso inconseqüente de poderes, jogos de influência, falsidade, descaso... Ufa! Mas muitos acreditam que isto não acontece aqui, não no Brasil... Provavelmente deve acontecer em alguma igreja do interior da Indonésia.

Não quero entrar em um debate com extremistas assim: “Porque você em vez de ficar falando, não sai?” . Na verdade tenho uma preocupação. Onde iremos parar? Já aconteceu no passado com outros movimentos que se burocratizaram tanto que perderam sua força. Compartilho a idéia do pr. Ricardo Gondim quando diz que o movimento evangélico tal como nós o conhecemos está trilhando seus últimos dias. Veja:

É engraçado porque, mesmo com a Igreja brasileira atravessando uma tremenda crise de conteúdos, a gente vive um momento de ufanismo evangélico. A Igreja Evangélica brasileira tem uma grande dificuldade de examinar a si mesma, porque está muito entusiasmada com seu próprio crescimento. Mas é fácil constatar que o Evangelho tem sido pregado e vivido de uma maneira extremamente pragmática, utilitária. Que Evangelho estamos pregando? É um Evangelho de resultados, onde o que interessa menos é o próprio significado da conversão. Isso é muito grave. O significado da expressão “nascer de novo” está muito difuso dentro das nossas igrejas. O que é nascer de novo? Esta experiência basilar foi diminuída a um simples rito comportamental de levantar a mão, vir à frente, seguir cinco ou seis “leis espirituais” – confesse isso, declare aquilo, aja deste modo. Ou seja, virou um credo. E um credo ralo. O conceito de nascer de novo está muito fragilizado, além de se falar pouco nele. E quando se fala, não sabemos nem a que estamos nos referindo. O movimento evangélico, tal como hoje o conhecemos, está próximo do seu fim.

Os sinais desse esgotamento são claros. Um deles é a fragilidade teológica e doutrinária dos adeptos do movimento evangelical nas bases. Se você perguntar a um membro de igreja evangélica, hoje, por que é evangélico, ele vai responder com um chavão ou relatando uma experiência mística, metafísica, sem qualquer conteúdo básico, exegético, hermenêutico. E essa experiência mística caberia muito bem em qualquer outra vivência religiosa, do budismo ao espiritismo. Esse esvaziamento teológico nas bases demonstra que a longevidade do movimento evangélico está comprometida

(Fonte: http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=25).



Não tenho uma resposta pontual para a resolução desses problemas, pois, são frutos de anos e anos de descaso e abandono de ideais. Mas, se tenho uma preocupação tenho uma esperança: que a igreja possa reagir. Não sou um defensor das igrejas emergentes, pois não compartilho e não concordo de algumas bases, mais confesso que pode ser um caminho. Ela trabalha com uma idéia que desestimula a institucionalização, a formalização, a burocratização. Pode ser esse o caminho que nos levará de novo ao interesse pelas pessoas, pelo compartilhamento, para a unicidade, para o crescimento de dentro pra fora como cristãos. A esperança provavelmente está no momento que a igreja deixar de ser rentável, e aqueles que resistirem a quebra entenderem que a verdadeira igreja somos nós, os seres humanos pelo qual Jesus morreu.

Flavio

fonte: Stay Freak

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