quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Blogs no olho do furacão


A voz do jovem palestino e blogueiro Sameh Akram Habeeb, de 23 anos, soava cansada no telefone ao falar com o Link pela segunda vez na última semana enquanto o 13º dia da ofensiva de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza chegava ao fim, na noite de quinta-feira. “Está tudo bem por aqui... Só que os bombardeios ainda não acabaram (suspiro). Você já escreveu meu nome no jornal?”, ele pergunta, curioso, mas sem entusiasmo.

É que, desde o início do cerco a Gaza, há duas semanas, Sameh teve poucas horas de descanso. Ele se dispôs a reportar voluntariamente, pela internet, a situação na Cidade de Gaza, onde vive com seus pais, irmãos e irmãs.

Sua casa está sem eletricidade e, a cada dia, ele percorre quatro quilômetros até um local onde pode recarregar a bateria de seu notebook. Nas horas seguintes, telefona para hospitais, ouve as notícias pelo rádio do seu celular e tira fotografias do caos que tomou a região. Em casa, na região leste da cidade, se conecta à internet usando uma precária conexão discada.

Ela é lenta, mas, desde que a banda larga deixou de funcionar, tem sido a única opção para atualizar seu blog Gaza Strip, the Untold Story e o álbum virtual de fotografias que mantém no site Picasa.

No blog, que em português quer dizer Faixa de Gaza, a História Não Contada, Sameh descreve as dificuldades pelas quais os palestinos habitantes de Gaza têm passado nos últimos dias. Falta de água potável, energia, comida, gasolina, gás e assistência média são alguns dos problemas citados na página. Ele também enumera os acontecimentos do dia com uma sobriedade de manchete jornalística: “A casa da família Bawadi, em Jabalia, foi destruída”, dizia uma das atualizações de quinta-feira.

A sobriedade não é à toa. Sameh é formado em Língua Inglesa em 2008, mas também faz trabalhos como jornalista independente. Por isso, a cobertura em seu blog tem um tom objetivo, mesmo que ele, pessoalmente, tenha opiniões contrárias às ações de Israel.

Blogueiros palestinos como Sameh têm feito um papel importante durante a ofensiva israelense porque nenhum jornalista estrangeiro teve permissão de Israel para entrar na Faixa de Gaza até sexta-feira. Israel informou à organização Repórteres Sem-Fronteira que um cinegrafista da BBC entrou acompanhado do Exército. Com informações de pessoas como Sameh, a mídia internacional conseguiu dizer o que ocorria dentro da Faixa de Gaza.

Sameh é um caso especial porque, além de ter experiência como jornalista, deixa todos os seus contatos no blog. “Estou disponível 24 horas para atender jornalistas. Você pode me ligar a qualquer hora em minha casa”, avisa ele no blog.

Sua primeira entrevista para um jornalista estrangeiro foi em março, depois de um ataque na Faixa de Gaza. O palestino foi encontrado por causa do blog, que já publicava desde o início de 2008. Nas últimas duas semanas, porém, ele foi procurado diversas vezes para contar sua experiência como um palestino vivendo em meio aos ataques. “Muitas emissoras me procuraram, como CNN, ABC, CBS, Skynews, e jornais grandes, como USA Today, New York Times, Libération e Le Figaro”, diz.

“Meu telefone toca como o de um escritório cheio. Tenho um celular que fica ocupado toda hora também. Imagino que recebi umas 200 ligações nas últimas duas semanas. Não foram só jornalistas, mas algumas pessoas ligaram para dar apoio, dizer boa sorte e essas coisas”, afirma.

O blogueiro não esconde seu orgulho pessoal de ter recebido tantas ligações do mundo todo. “Tenho uma boa experiência já. Sou um bom fotógrafo, um fotógrafo fantástico. Você viu minhas imagens no site Skynews? Fotos fantásticas”, gaba-se.

A vontade de ajudar e de contar a situação de Gaza trouxe consequências perigosas. Na quinta-feira, Sameh recebeu três ligações anônimas ameaçando-o de morte se não parasse de escrever no blog. Ele diz não ter medo e que apenas não quer que sua família seja machucada. “Vou continuar escrevendo mais e mais. Não vou parar. Sinto que preciso mandar notícias sobre esta guerra”.

Após a declaração, Sameh conta que adora o Brasil e quer visitar o País quando tiver férias. Fica curioso para saber se é o custo de vida aqui é alto e ainda diz que em Gaza há muitos fãs de Ronaldo, o jogador. “Sabia que ele já esteve em Ramallah (cidade palestina próxima a Jerusalém)?”

A conversa é interrompida e ele diz “Look, breaking news (olhe, últimas notícias): um jornalista de Gaza foi morto em sua casa. Era um cinegrafista. Acho que foi atingido por um foguete. Nossa, agora estou com medo.”

A blogosfera vira zona de guerra


“A blogosfera e as novas mídias são uma outra zona de guerra. Temos que ser relevantes nestes espaços.” A frase foi dita ao jornal Jerusalem Post pela major Avital Leibovich, chefe de relações públicas para mídia internacional das Forças Armadas de Israel. Ela se referia às iniciativas do país na internet nesta incursão na Faixa de Gaza. O departamento de comunicação das forças armadas (Israel Defenses Forces Spokesperson's Unit) criou um canal no YouTube onde publica vídeos principalmente dos ataques de precisão de caças e bombardeiros.

Também foi aberta uma conta na rede social de microblogs Twitter, por meio da qual o órgão faz um resumo dos acontecimentos do dia, publica informações sobre soldados mortos ou feridos, divulga imagens, etc. Uma coletiva de imprensa “para cidadãos” anda foi realizada dentro do Twitter. Usuários do site enviavam suas perguntas que eram respondidas em seguida na página www.israelpolitik.org. Segundo a reportagem do jornal israelense, o governo país tem se dado conta que parte da culpa no fracasso na campanha do Líbano em 2006 foi a falta de preparo em lidar com o debate na mídia. Se militantes palestinos tinham blogs, pediam apoio à causa na web, etc., Israel agora quer mostrar, também no mundo virtual, que é vítima de ataques dos grupos como o Hamas e o Hezbollah

Outros blogs

BLOG IN GAZA
Blogueiro anônimo descreve, a partir de Cidade de Gaza, as dificuldades e o sofrimento de famílias e pessoas vítimas de ataques. Também publica fotografias fortes.

A MOTHER FROM GAZA
A jornalista palestina Laila El-Haddad, que vive nos EUA, descreve as dificuldades que seus parentes e amigos tem enfrentado na Cidade de Gaza.

FROM GAZA WITH LOVE
Mona El-Farra, uma médica palestina e ativista de direitos humanos e das mulheres, conta principalmente sobre as dificuldades dos médicos em atender os feridos.

RAFAH KID
O blogueiro que assina Rafah Kid traz algumas informações, vídeos, fotos e atualizações do Twitter a partir da cidade de Rafah, próxima à fronteira da Faixa de Gaza e Egito.

YOUTUBE IDF SPOKEPERSON
Canal no YouTube do departamento de comunicação das forças armadas de Israel com vídeos de bombardeios e pronunciamentos.

TWITTER QASSAM COUNT
Blogueiros pró-Israel criaram uma conta do Twitter e um aplicativo no Facebook com informações atualizadas sobre ataques de foguetes palestinos.

fonte: Caderno Link - O Estado de S.Paulo [via PavaBlog]

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