terça-feira, 26 de agosto de 2008

Olim(piadas) de português

Pois é... não são somente os brasileiros que lamentam o fiasco da participação nacional nos Jogos Olímpicos de Beijing, na China. Nossos camaradas (e companheiros de piadas) portugueses também estão lamentando a falta de preparo dos atletas e as péssimas classificações no quadro de medalhas. A seguir um artigo publicado no periódico portuguê Diário de Notícias.

Não crucifiquem os falhados olímpicos

Eurico de Barros
Não crucifiquem os falhados olímpicos

Não me junto ao coro indignado e ensurdecedor de críticas aos atletas olímpicos portugueses, expostos ao ridículo público e à execração mediática por causa das declarações com que justificaram os seus falhanços, e que vieram de Pequim de mãos a abanar. Se somos um povo de irremediáveis amadores, se o amadorismo mais escancarado está presente em todas as situações, procedimentos e gestos do quotidiano nacional, desde a governação até ao simples acto de atender um cliente numa loja ou num café, não podemos esperar outra coisa do que ser representados de forma amadora num acontecimento como os Jogos Olímpicos.

Figuras de eleição como Carlos Lopes, Rosa Mota, Nélson Évora são as excepções, as ocasionais fugas à norma, as aberrações estatísticas. Os verdadeiros, os genuínos representantes de Portugal, que corporizam a expressão do nosso ser mais profundo traduzido na prática desportiva, são Marco Fortes, o lançador de peso amigo da caminha, a corredora Sara Moreira, que participou nos 3000 metros obstáculos como adepta e não como atleta, o fatigado judoca Pedro Dias, a corredora de 800 metros Carmo Tavares, que deu metade do objectivo como cumprido, os nadadores que bateram uns quantos recordes nacionais e foram campeões do cronómetro, a esgrimista Débora Nogueira, que deixou a adversária atacar tanto, tanto, que perdeu o combate, o marchista que apontava ao 16º lugar e ficou em 17º.

Não vale a pena crucificá-los, porque inconscientemente nos revemos neles. É a nós próprios que estamos a atacar. Reparem que em Portugal até os animais são amadores. A égua do cavaleiro Miguel Ralão Duarte não “entrou em histeria com medo do ecrã” vídeo do recinto onde decorria a prova? Muito de vez em quando, um destes amadores faz um milagre. Foi o caso do atirador Armando Marques, que contou há dias na RTP que foi para os Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, “com a minha mulher e a espingarda, e lá chegado reparei que todos à minha volta tinham assistentes, psicólogos e dietistas”, e conseguiu ganhar uma medalha de prata.

E aí é uma verdadeira alegria, uma euforia patriótica espontânea e não pré-programada, porque ninguém estava à espera de nada e a glória olímpica cai-nos do céu aos trambolhões. Não, eu estou do lado dos nossos atletas dorminhocos, cansados, temerosos, resignados, realistas, queixinhas, afastados das medalhas por um ponto, ou repescados por uma unha negra e eliminados logo a seguir, que saem de cena “de cabeça erguida”, apesar de o resto do corpo se ter vergado à superioridade alheia.

São eles que respeitam à letra a máxima, hoje tão desprezada, do barão Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna: "O importante é competir, e não vencer.” A dignidade olímpica está do lado deles, embora quase ninguém já repare nisso. Bem faz Marco Fortes, que gosta de ficar na caminha, no quentinho, de manhã. Antes isso do que ir mergulhar numa piscina fria todas as madrugadas como Michael Phelps, e acabar transformado numa disformidade papa-medalhas de ouro, fabricada músculo a músculo por médicos, psicólogos, farmacêuticos e nutricionistas.

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